Etapa 5 da Jornada de Visitas aos Doutores Cidadãos (Hospital Brigadeiro – 12/09/17)

QUINTA ETAPA DA JORNADA DE VISITAS

Local: Hospital Brigadeiro

Data: 12 de setembro de 2017

Horário: 15h às 17h

Participantes: Felipe Mello (Dr. Raviolli Bem-te-Vi), Katia Safra(Dra. Araratinha) e Sueli Trindade (Dra. Borboleta Farfale).

Diário da Visita (por Felipe Mello):

Visitar o Hospital Brigadeiro é sempre especial. Motivos não faltam: além do fato – importante, mas menor – dos Doutores Cidadãos terem começado a sua história lá, o hospital atua em áreas muito sensíveis da medicina, especialmente por meio de transplantes. Entre os transplantes, o de medula óssea. E foi nessa área do hospital que esta visita teve seus momentos mais especiais.

Antes disso, contudo, vale lembrar que a visita foi realizada em companhia de duas voluntárias Doutoras Cidadãs, Dra. Araratinha e Dra. Borboleta Farfale. A primeira atua no período da tarde e a segunda, no período da noite. Ou seja, não são parceiras de atuação. Fomos todos juntos, pois a Dra. Borboleta Farfale estava fazendo uma reposição de visita. Uma feliz oportunidade de atuarmos juntos!

As duas chegaram pouco antes de mim e já foram se preparar. Assim que cheguei, fui até o departamento de Humanização para abraçar a Jonadir, que há tanto tempo, e tão respeitosamente, faz a nossa ponte com o hospital. Felizmente ela compartilhou alguns pedidos e possibilidades, sinais da confiança e respeito mútuas. Aqui faço um registro: expresso minha gratidão, em nome do Canto Cidadão, também à Carmen e à Tânia, que em outros momentos atuaram como nossos contatos no Brigadeiro. Nossa vontade de sempre e crescente é fortalecer cada vez mais os laços com os hospitais públicos, por meio de suas equipes, pela crença profunda de que um aparelho público, que é meu e é seu, só será do jeito que pode e deve ser quando for alvo de atenção, fiscalização e apoio contínuas. E cremos no voluntariado como uma das formas mais potentes de enlaçar esses atores sociais.

Ah! Na salinha também me encontrei com uma voluntária que há pelo menos 15 anos atua naquele hospital. Ela afirmou se lembrar dos primeiros passos dos Doutores Cidadãos no local e, enquanto fazia seu artesanato em forma de flores, revelou sua alegria com a nossa presença. Que gostoso!

Após o papo inicial, fomos aos bons encontros. E bastou sair da sala da Humanização para que eles começassem a acontecer. Nos corredores, elevadores, escadas, salas de espera. Pessoal da limpeza, copa, enfermagem, entre tantos outros profissionais, para sorte ou desespero (rs) deles, foram e devem sempre ser motivos de nosso interesse. Claro, por vezes a interação não cabe num momento específico de um procedimento, mas, preservado esse cuidado contínuo de não atrapalhar, buscamos propor bons encontros também a quem oferece cuidados aos pacientes. E, felizmente, na maioria absoluta dos casos, a proposta é aceita, valorizada e amplificada pela equipe.

E por falar em equipe, depois de alguns instantes circulando e aquecendo a fábrica de interações animadas, fomos à ala de TMO, Transplante de Medula Óssea, e ali fomos praticamente convocados pela enfermagem para uma missão inesquecível: celebrar a vida!

Assim que entramos naquele espaço que acolhe pacientes infantis, adultos e idosos na fase seguinte ao transplante, fomos informados que aconteceria uma festa da “pega”. De forma bem resumida, a “pega” ou enxertia medular significa que a medula já está instalada e funcionando. Ou seja, estávamos prestes a fazer parte de um momento sublime: alguém receberia uma notícia excelente, um abraço da possibilidade de seguir em frente na jornada. A paciente em questão, uma jovem mulher e mãe de uma menina de menos de dois anos, recebeu o abraço em forma de música, sorrisos e lágrimas, da equipe, assim como dos colegas pacientes, que foram às portas de seus quartos para aplaudir e comemorar o momento.

Ah, claro, as palhaças e o palhaço também fizeram parte da festa, que tinha tudo para ser miada, ao menos em aparência. Um pequeno bolo. Faquinha de plástico. Nada de bebida. Uma pequena luminária com luzes coloridas colocada na tomada do corredor. No entanto… Ah, minha amiga e meu amigo. Que festa! Quanta potência de vida. Quanta esperança ativa. Quanto respeito à jornada e ao papel de cada pessoa no processo. Querida, M., que a sequência do seu tratamento seja tão incrível como a festa que tivemos em sua homenagem, naquele corredor apertado em que não cabia tanta alegria sincera.

Ufa. Um cisco tinha entrado em meus olhos. Palavras de torcida e de até logo. Agradecimentos recíprocos com a equipe. E nova convocatória: outras duas pacientes, mulheres por volta dos 50 anos, também receberiam a notícia da “pega”. E a equipe de enfermagem queria que fôssemos com ela para a nova celebração. Confesso uma incapacidade de colocar em palavras o que vivi naquele quarto. Quando chegamos lá e entramos com o bolinho em mãos, uma das pacientes teve uma reação tão, mas tão feliz, que poucas vezes, sem exagero, tive contato com alegria mais espontânea e potente. Indizível. A alegria não cabia nela. A colega de quarto, também agraciada pela notícia da “pega”, reagiu de forma um pouco mais contida, mas ainda assim com uma energia de dar gosto. Gosto de vontade de viver. Gosto de gratidão.

De minha parte, senti uma gratidão genuína em poder presenciar mais um momento tão relevante da vida de alguém. Cantamos uma música de Tom Jobim completamente fora do ritmo, trocando palavras, embargados na voz e molhados nos olhos. Muitos outros ciscos. Tenho certeza que o maestro nos perdoará. Embora não tenha sido essa a canção, ao sair do quarto, beijos jogados pelas pacientes, cantei na cabeça: “olha, que coisa mais linda, mais cheia de graça”. Congraçamento.

Que bom viver um momento com gente valorizando a vida pra valer, escapando à armadilha fácil da reclamação compulsiva, do mimimismo. E que bom sentir a valorização do trabalho da palhaçaria hospitalar, tanto por parte da equipe quanto por parte dos pacientes e acompanhantes.

Depois desses atendimentos, seguimos mais um pouco pelo hospital. Pedi para conversar com as palhaças sobre o Acordo de Responsabilidades, colocando-me à disposição para dúvidas e sugestões. Foi um bom papo. Maduro e simples, como o cumprimento dos combinados. Em seguida, deixei as palhaças atuando mais um pouco, pois era o primeiro encontro entra elas e, felizmente, pelo que ambas confessaram, foi um bom encontro.

Obrigado, meninas, pela acolhida! Parabéns pelo trabalho! Que possamos seguir pela vida testemunhando e promovendo, dentro e fora do hospital, momentos de celebração da vida, plantando boas entregas para colher respeito e valorização pelo que fazemos.

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